Nos últimos anos, as redes sociais passaram a desempenhar um papel importante na ampliação da visibilidade sobre o Transtorno do Espectro Autista. Plataformas como Instagram e TikTok contribuíram significativamente para a disseminação de informações, relatos pessoais e debates sobre inclusão social. Esse movimento trouxe avanços relevantes na conscientização da sociedade acerca do autismo e dos direitos das pessoas diagnosticadas.
Entretanto, a popularização do tema também gerou um efeito preocupante: o aumento do autodiagnóstico e da banalização do transtorno nas redes sociais. Atualmente, conteúdos superficiais associam características comuns do comportamento humano, como ansiedade, dificuldades de interação social, preferência por rotina ou hiperfoco, diretamente ao TEA, sem qualquer avaliação clínica adequada.
É importante destacar que o diagnóstico do autismo exige acompanhamento profissional especializado, realizado por equipe multidisciplinar e baseado em critérios técnicos e científicos. O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento complexo, que não pode ser identificado apenas pela associação pessoal em vídeos curtos ou publicações da internet.
A banalização do diagnóstico pode gerar impactos sociais relevantes, como a desinformação, a invisibilização de casos graves e a dificuldade de acesso ao acompanhamento especializado para pessoas que realmente necessitam de suporte. Além disso, o diagnóstico de TEA possui importantes reflexos jurídicos, especialmente no acesso a direitos garantidos pela Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015).
Por meio dessas leis, a pessoa com TEA possui proteção legal específica, com acesso à saúde, educação inclusiva, atendimento prioritário, acompanhamento terapêutico e benefícios assistenciais, quando preenchidos os requisitos legais, além de direitos relacionados ao transporte, trabalho, acessibilidade e inclusão social, assegurando sua dignidade, autonomia e plena participação na sociedade.
Recentemente, a Turma Nacional de Uniformização (TNU), ao julgar o Tema 376, decidiu que o diagnóstico de TEA, por si só, não é suficiente para a concessão automática do Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), sendo necessária avaliação biopsicossocial para análise do caso concreto. A decisão reforça a importância de diagnósticos responsáveis e avaliações técnicas adequadas no acesso aos direitos garantidos às pessoas com autismo.
A expansão do debate sobre autismo nas redes sociais representa avanço social importante, mas a simplificação excessiva do diagnóstico pode enfraquecer a própria proteção jurídica destinada às pessoas efetivamente diagnosticadas. Respeitar o autismo também significa tratar o diagnóstico com responsabilidade, seriedade e compromisso com a informação correta.

